O Sabor da Poesia

XXXI
MEDITAÇÃO SOBRE UMA VIDEIRA
se cai o silêncio dentro de mim
apenas ouço os passos que me levam
ao redor da videira.
um amor consumido por divindades da terra,
onde as carnes são carcomidas por olhares
sinuosos, o mau-olhado das plantas num
ambiente de matemáticas fluidas.
não se pode desejar mais do que a ciência
da paixão e morrer crucificado nos braços
de uma donzela pagã. a eternidade é apenas
mais um dia do que a manhã de outros tempos.
a ante-manhã da cor das casas.
o deus leva-me ao redor da videira.
a donzela transporta-me nos braços de uma
imagem, que se materializou num pássaro.
talvez amanhã acorde e fique a dormir e
a acordar constantemente. e o deus se ria
dos poemas.
era o fulgor
de uma imagem
o outro filme
o pássaro de
água a chama
líquida do deus
que constrói o seu
pranto.
agrada-me o riso silente das flores
e do labor que vai inventar o vinho.
dizem que foi noé o primeiro a saborear
as coisas da vida. mas eu digo que fui
eu que aprendi a nadar e a perecer no
dilúvio. se não fosse o poema, as aves
e os deuses apenas morriam como os homens.
a caça no vinho é feita
com dois olhares e sete
palavras proferidas. a
magia a alquimia a lagoa
das sete cidades a experiência
mítica da origem. hierofania.
rito. tudo no vinho e para além
dos deuses.
Jorge Vicente