O Sabor da Poesia

(Rubens, O Rapto de Europa)
"Entre a zona, que o cancro senhorea,
Meta septentrional do sol luzente,
E aquella que por fria se arrecêa
Tanto como a do meio por ardente,
Jaz a soberba Europa, a quem rodêa
Pela parte do Arcturo, e do Occidente,
Com suas salsas ondas o Oceano,
E pela Austral o mar Mediterrano.
Da parte donde o dia vem nascendo
Com a Ásia se avisinha; mas o rio,
Que dos montes Rhipheos vem correndo
Na alagoa Meotis, curvo, e frio,
As dividiu; e o mar, que fero, e horrendo,
Viu dos gregos o irado senhorio,
Onde agora de Tróia triumphante
Não vê mais que a memória o navegante"1
LUIS DE CAMÕES
1 CAMÕES, Luís de apud SORIANO, Simão José da Luz - Revelações da minha vida e memórias de alguns factos, e homens meus contemporâneos. Lisboa: Tipografia Universal, 1860. p. 197.
Duas coisas. Primeiro sobre esse Rubens aí: lembre-se que a Tate Gallery de
Londres inaugura essa semana uma mostra gigantesca desse "deus dos
pintores". Para quem está aí na Europa, acho que valeria dar um pulo por
lá. Segundo,e agora sobre o Camões. Poucos são os que se atrevem a lê-lo
nos dias de hoje. E por que? Porque para quem escrevia rigorosamente
sincopado e cheio de oximóros, é mesmo um estorvo para leitores acostumados
a video-clips literários. Definitivamente esse monstro sagrado não sai de
cena. Nem poderia, porque não há até hoje quem o entenda, quanto mais quem
o substitua.
abçs
Ilidio