O Sabor da Poesia
O céu é feito daquela substância imaterial que se julga existir nas estrelas, mas que, apenas em breves momentos, se acerca da natureza humana e a contempla. Por vezes, essa contemplação assume a forma de rebeldia e as estrelas, em rebuliço, emprestam o seu fogo à terra, criando aquilo que os humanos denominam relâmpagos de luz. Não, não estou a falar de estrelas cadentes; elas apenas voam na noite escura, criando o ambiente propício para que os amantes se aproximem. O fogo das estrelas toca a extremidade da terra e faz estremecer os seus pilares. É tenebroso.
O céu estava, assim, carregado e desejoso de espalhar os seus raios na superfície do Alentejo. Na aldeia, defronte da igreja, um pequeno grupinho de folhas balouçava intermitentement consoante a direcção do vento. Para a direita, para a esquerda, com os movimentos misturados uns nos outros, sem sequer se decidir por um deles. O silêncio era imenso, não se avistava qualquer partícula de som escondida nas casas caiadas de branco. O que era de estranhar visto a aldeia ter sido bem frequentada, em tempos passados, quando o caminho de ferro ainda era um meio de comunicação importante para o Alentejo. As pessoas saíam da estação, pediam um carro para a aldeia e aí chegavam em cinco minutos. Normalmente, eram emigrantes e crianças vindas de Lisboa quem frequentava a aldeia no Verão. Acompanhadas pelas respectivas famílias, gritavam e pulavam como se o mundo fosse dos anjos e delas. De vez em quando, ainda se organizavam festas populares, como aquelas que se vêm por aí, com foguetes e fogo de artifício para a malta se esquecer que é malta e maravilhar-se com as invenções dos humanos. Convidavam-se os artistas da moda que cantavam umas musicazinhas e se iam embora. A aldeia e a alma das pedras ficava lá, no mesmo sítio, sem ser tocada pelas pessoas nem por qualquer acorde despejado pelos supostos cantores. É por isso que o cante alentejano é tão triste. Deus esqueceu-se das planícies sem fim e empurrou a neve para as altas montanhas do Norte. Que também recebiam cantores e crianças vindas de Paris trazidas pelas cegonhas mecânicas que banham o céu, com as suas asas de ferro.
A aldeia vivia da agricultura, mas o trigo já não dava o que dera na primeira metade do século passado, quando o Alentejo ainda era o celeiro de Portugal. Agora, as aldeias que ficam ao pé da auto-estrada é que prosperavam e, muitas vezes, nem isso.
Na aldeia, o rapaz e o velho aproximaram-se da janela e viram o céu coberto dessa substância imaterial que cobre todo o Alentejo em certos dias do ano. Souberam logo que, não tardava nada, todo o campo se iria transformar num pequeno lago. E que a chuva iria banhar o que não tinha banhado no ano todo. As folhas que balouçavam intermitentemente soltaram-se do arbusto que as prendia e rodopiaram. Alegres, foram-se pôr à frente da porta da capela. Que se mantia fechada. O silêncio fechado. Apenas a voz do deus que irrompia dos solavancos da planície e sobressaía em todo o seu esplendor. Cada vez mais presente no seu silêncio.
O velho observava a televisão que despejava imagens. "Não é a minha imagem, nem a imagem daquilo que eu conheço. Para que-hei de estar preocupado em sentir o que não posso sentir, mesmo que viajasse para além desta aldeia? Não me consigo ouvir na minha própria casa, como poderei ouvir o que a televisão tem para transmitir?"
O silêncio transformou-se num soluço inconstante. Pausado. Com a vida presa numa voz sussurrante. Lentamente, desvaneceu-se um pouco e descaiu para a terra. Ainda estava longe a tempestade. Provavelmente, muito para além de Beja. O céu é tão grande que pode albergar todo o país, mesmo que a terra seja redonda por fora e transparente por dentro. O velho recolheu-se no seu sofá de estimação e pôs-se a ver a novela. Sem prestar atenção, embora soubesse o nome de toda a gente, mais do que sabia os nomes dos seus vizinhos na aldeia em que nasceu e em que cresceu. Sentiu-se triste. Fingiu sonhar que a televisão fosse levada pelo vento e pelas estrelas cadentes e fugisse para Lisboa. Revoltava-se com a sua condição de levar o conhecimento para o meio do Alentejo e voltava para casa. Como se a casa fosse um quadrado em perpétuo movimento. Os soluços continuaram distantes. O país era uma semente que respira tempestade. "Tempestade e memória" pensou o velho, ao lembrar-se dos Invernos passados na aldeia e em Castro. E já nessa altura o céu soluçava, mas os soluços eram diferentes. Eram feitos pelo próprio Deus que adormecia nos sobreiros e molestava as belas raparigas quando elas regressavam da lavoura. Agora, é mais estranho. O deus volta quando lhe apetece, seja no Verão ou no Inverno. Antes, havia um horário estipulado para ele voltar, já as raparigas fugiam para a aldeia e refugiavam-se nas saias das mães que riam da crendice das meninas. Na televisão, falam do El Niño. Pois, talvez seja isso. O deus é um menino doido por brincadeira.
Os soluços transformaram-se em algo mais forte. Um tambor tocado numa festa lá ao longe, ao pé de Beja. Pois, talvez a tempestade já esteja em Beja. Agora, é momento de nos sentarmos à lareira e contarmos histórias uns aos outros para passar o tempo. Vamos pôr uma marca vermelha na porta da casa para avisarmos o deus de que as meninas abandonaram a aldeia e fugiram para Lisboa. À procura de namorados ou porque os pais arranjaram um emprego melhor na capital, com salário fixo, sem esperar que os produtos cresçam no interior da terra.
Os tambores pararam um pouco. Será que em Beja também há meninas que se assustem com os elementos? Ou com o deus manhoso? Talvez viva em nós todos esse sorriso tosco que nos faz esquecer de nós próprios e dos outros. E transformamos o espaço que nos rodeia em algo que não deve existir. Nem no Alentejo nem em qualquer parte do mundo. Os tambores voltaram. Mais fortes. O velho olhava a novela e fazia de conta que não ouvia as palavras. Mas ouvia-as, embora elas parecessem sem graça e apenas palavras. A chuva começou a cair. As folhas fugiram para a capela e bateram à porta. O padre abriu a porta e pô-las sobre a sua cabeça, em gesto de despedida. Elas agradeceram a sua boa vontade. O velho sorriu para o rapaz e pediu umas bolachinhas e um chazinho preto. Sabe tão bem quando chove e quando troveja.
Os tambores aproximavam-se, assim como a noite. Junot era um general louco que queria conquistar o Alentejo todo, com mais de mil homens a demonstrar todo o seu potencial musical. O velho bebeu o seu chá e esperou que Junot se aproximasse da sua casa para lhe levar para França ver os seus familiares. Adormeceu. A luz entretanto apagou. E a novela foi com Junot, saiu pela porta das traseiras para ser levada como produto exportado para Paris. Será isso que o país tem de oferecer? O rapaz aproximou-se do velho, deu-lhe um pequeno beijo e quis adormecer também. Quase não ouvia a voz do velho carregada. Como se o Alentejo estivesse todo nele e morresse naquele instante, quando o deus passou pela planície e ameaçou destruir quem o impediu de brincar com as moças. Não ouviu o respirar arrastado à medida que os tambores se iam embora, em direcção do Algarve e da serra. O velho e os tambores que se despedem da vida, à medida que a noite ia avançando, tento descobrir o manto de estrelas que teimava em não aparecer, deitadas nos olhos do velho.
Jorge Vicente