O Sabor da Poesia
| A Manopla de Karasthan Filipe Faria Date: Abril 2002 — Book Rating: |
Quando iniciei a minha leitura da primeira saga de Filipe Faria, As Crónicas de Allaryia, confesso que não estava muito entusiasmado. A escrita não me pareceu muito convincente nem a história empolgante. Acho que isso se deveu, essencialmente, a dois factores: ao facto de eu ter terminado, não muito tempo antes, as obras de Ricardo Pinto, dois livros absolutamente poéticos e excelentemente escritos o que não acontecia com as Crónicas, que era muito mais directo e simples.
Acho que isso se deve, acima de tudo, ao facto, de Filipe Faria ter começado a escrever o livro bastante novo, na adolescência o que explica, por vezes, um discurso menos elaborado. O segundo motivo deve-se ao facto do livro ser bastante parecido com outros livros de autores bastante conhecidos. Alguns críticos de Filipe Faria referem-se a Tolkien e outros que não me recordo.
No entanto, esses pontos menos positivos foram-se desvanecendo ao longo da escrita, o que prova que a escrita deste autor foi crescendo, crescendo, crescendo mesmo ao longo do livro. E o que começou um pouco timidamente acabou maravilhosamente bem. Não é muito bonito acabarmos um livro sem nos interessarmos pelas personagens - isso prova que o livro não nos empolgou e que o autor não conseguiu transmitir a sua mensagem. Mas, no caso da Manopla, isso não aconteceu. Todos os personagens são interessantes, até Worick que não faz mais nada do que resmungar e brandir o seu martelo. Quanto à originalidade ou não, que é que interessa a originalidade? A originalidade vai aparecendo ao longo do tempo, quando se pratica a escrita. É muito raro um adolescente escrever como Rimbaud, que escreveu a totalidade da sua obra antes dos 18 anos. Nem eu, que quando tinha 18 anos, só escrevia gatafunhos e que, comparado com F. Faria, era um zero à esquerda. Hoje, estou muitíssimo melhor. E a cura é simples: escrever e mais escrever.
Por isso, Filipe, não desanimes e continua a escrever mais e melhor. E, não sei se pensaste nisso, não te parece que a diferença entre os eahan e os eahanoir não será a diferença que existe entra a sociedade grega, altamente cultural e virada para a virtude e a filosofia, e a sociedade romana, violenta, agressiva, cruel? Ou seja, os dois polos da mesma civilização clássica?
Abraços
Jorge Vicente