O Sabor da Poesia

(fotografia de Marilyn Minter, "Manicure", 2002)
O que será o sadismo? Libertação? Desolação? Comentem.
"O duque pretendeu no decurso da ceia sustentar que, se a felicidade consistia na integral satisfação de todos os sentidos, era difícil eles serem mais felizes do que eram.
- Tais propósitos não são de libertino - disse Durcet. - Como é que podeis ser felizes podendo, como podeis, encontrar a satisfação a qualquer hora? Não é no gozo que reside a felicidade, mas sim no desejo e no quebrar dos freios que a esse desejo se opõem. Ora, será que encontramos isso aqui, onde temos tudo o que desejamos? Juro que desde que para aqui vim, nem uma única vez a esporra me jorrou movida pelos objectos que aqui se encontram. Todas as vezes que me vim foi graças a objectos ausentes; e além disso - continuou o financeiro - falta aqui, a meu ver, uma coisa essencial à nossa felicidade. É o prazer da comparação, prazer que tem de nascer do espectáculo dos infelizes e que por nós aqui não lobrigamos. É vendo aquele que não goza daquilo que eu gozo, é vendo aquele que sofre, que nasce o encanto de se poder afirmar: sou mais feliz do que ele; onde os homens forem todos iguais e onde não existirem diferenças, não existirá felicidade alguma. É a mesma história do homem que só sabe o preço da saúde quando se encontra doente.
- Nesse caso - disse o bispo - será que encontrareis real prazer em contemplar as lágrimas daqueles a quem a miséria aflige?
- Certamente - respondeu Durcet - não deve haver mais sensual volúpia do que essa de que falais.
- Mas, sem os consolardes? - perguntou o bispo cuja vontade era levar Durcet a alongar-se sobre um capítulo de todos muito apreciado, e que se sabia ele ser capaz de tratar muito a fundo.
- Que quereis dizer com consolar? - replica Durcet. - A volúpia, que em meu entender nasce da doce comparação entre o estado desses e o meu, deixaria de existir se eu os consolasse, pois, tirando-os desse modo do seu estado de miséria, fá-los-ia saborear momentos de ventura que os tornaria semelhantes a mim, e acabaria totalmente com o prazer da comparação.
- Bom, então. - disse o duque -, sendo assim, seria necessário, de qualquer das maneiras, para melhor discernir essa diferença essencial à felicidade, seria necessário, dizia eu, agravar ainda mais a sua situação.
- Disso não há dúvida nenhuma - disse Durcet - e isso explica as infâmias que durante toda a minha vida me censuraram. Os que não conhecem as minhas razões chamam-me duro, feroz e bárbaro, mas eu, escarnecendo de todas as denominações, segui sempre o meu caminho, cometendo, concordo, aquilo a que os parvos chamam atrocidades, mas ao mesmo tempo conseguindo prazeres de deliciosas comparações e era feliz. (...)
- Quase sempre trouxe, mas muitas das vezes procedi assim só pela maldade que quase sempre desperta em mim os órgãos da lubricidade; o mal enche-me de tesão, encontro no mal o assaz picante atractivo que faz despertar em mim todas as sensações do prazer, a ele me entrego só com vista nele próprio, sem outro interesse que não seja ele e só ele. (...)
- Certo é - disse o duque que começava a ter a cabeça incendiada, enquanto ia fazendo festas a Zéfiro - que o crime tem suficiente encanto para, por si só, abrasar todos os sentidos, sem haver necessidade de se recorrer a qualquer outro expediente, e ninguém como eu compreende que, mesmo que não tenham qualquer parecença com a libertinagem, os mais capazes de motivar tesão são os actos criminosos. Eu que vos falo, senti já tesão por roubar, por assassinar, por incendiar, e estou perfeitamente convencido que não é o objecto da libertinagem que nos excita mas sim a ideia do mal e que, por consequência, é mercê do mal que ganhamos tesão e não mercê do objecto, de tal guisa que, se esse objecto fosse privado da possibilidade de nos levar a praticar o mal, não nos provocaria qualquer tesão"1
MARQUÊS DE SADE (1740-1814)
1 SADE, Marquês de - Os Cento e Vinte Dias de Sodoma. 1ª edição. Lisboa: Antígona, 2000. ISBN 972-608-115-7. pg 215-217.
querido jorge. lamento ser a primeira a comentar. espero que outros se
sigam. estes texto está magnificamente ilustrado. e o mais importante: o
motivo pelo qual o publicaste. tenho orgulho em ser tua amiga. um abraço
As with the Marquês de Sade, what is depravity, could be someone's bread &
butter, right? Not mine though.