O Sabor da Poesia

(fotografia de Marcel Broodthaers, "Mademoiselle Rivière and Monsieur Bertin", 1975)
"De resto, está provado que é o horror, a vilania, as coisas horrorosas o que mais gozo dá quando se está com tesão: ora, tudo isso, onde encontrá-lo senão num objecto viciado? Evidentemente que se é a coisa suja o que no acto da lubricidade dá gozo, quanto mais suja estiver mais gozo deve dar e é certamente mais suja num objecto viciado do que num objecto intacto ou perfeito. Disto não há qualquer dúvida. A beleza aliás é sempre coisa simples, a fealdade é que é extraordinária e a imaginação ardente prefere com certeza a coisa extraordinária, em lubricidade, à coisa simples. Só em sentido simples é que a beleza e a frescura impressionam; a fealdade, a degradação ferem mais firmemente, é mais forte a comoção, a agitação tem de ser mais viva. Sendo assim, ninguém se deve espantar com o facto de muitíssimas pessoas preferirem para seu gozo uma mulher velha, feia e até malcheirosa a uma menina fresca e bonita, da mesma forma que não nos devemos espantar se um homem preferir, para passear, o solo árido e bravio das montanhas aos carreiros monótonos das planícies."1
MARQUÊS DE SADE
1SADE, Marquês de - Os Cento e Vinte Dias de Sodoma. 1ª edição. Lisboa: Antígona, 2000. ISBN 972-608-115-7. pg 58.