O Sabor da Poesia
(imagem do filme Saló de Pier Paolo Pasolini)
"Há muita gente - dizia o duque - que é arrastada a fazer o mal somente quando a arrasta a paixão; passada a desorientação, a alma tranquila regressa calmamente ao caminho da virtude, e, passando assim a vida do combate para o erro e do erro para o remorso, finam-se sem se tornar possível saber com precisão que papel foi o que andaram a representar cá na terra. Semelhantes seres - continuava ele - são uns desgraçados: sempre flutuantes, sempre indecisos, passam toda a sua vida a detestar de manhã aquilo que fizeram à noite. Tendo a certeza de que se vão arrepender dos prazeres que saboreiam, tremem todas as vezes que a si próprios tal permitem, de guisa que se tornam a um tempo virtuosos no crime e criminosos na virtude. Mas o meu firme carácter - acrescentava o nosso herói - jamais se desmentirá por essa forma. Nunca vacilo nas minhas opções e, como tenho sempre a certeza de encontrar prazer naquilo que faço, nunca o arrependimento poderá enfraquecer aquilo para que sou atraído. Firme nos meus princípios, dado que neles me formei fortemente desde a mais tenra idade, procedo sempre consequentemente para com eles. Eles fizeram-me chegar ao conhecimento do vazio e do nada da virtude; odeio-a e ninguém me há-de-ver a segui-la. Eles convenceram-me de que nada foi criado, a não ser o vício, que possa fazer sentir ao homem aquela vibração moral e física que é fonte das mais deliciosas volúpias; a ele me entrego. Cedo me coloquei acima das quimeras da religião, perfeitamente convencido de que a existência do criador é um absurdo revoltante em que nem as próprias crianças acreditam. Não tenho absolutamente nenhuma necessidade de constranger as minhas inclinações com vista a agradar-lhe. Da natureza as recebi, essas inclinações, e era a ela que eu irritaria se lhes resistisse; se ela mas deu assim más, foi porque, a seus olhos, assim me eram necessárias. Eu mais não sou, nas suas mãos, que uma máquina que ela move a seu bel-prazer e nenhum dos meus crimes deixa de a servir; todos os que ela me aconselha lhe são necessários: louco seria eu se lhes resisitisse. Tenho contra mim, portanto, só as leis, mas a essas desafio-as; o meu ouro e os meus haveres colocam-me acima desses flagelos vulgares que só atingem o povo"1
MARQUÊS DE SADE
1SADE, Marquês de - Os Cento e Vinte Dias de Sodoma. 1ª edição. Lisboa: Antígona, 2000. ISBN 972-608-115-7. pg 16, 17.