O Sabor da Poesia

"Porque: gostar das ondulações primitivas das marés, de algas, da música que os búzios esses sofisticados transístores emitem; gostar de comungar hóstias quentes de sal, de aceitar no corpo a água e ser duna de areia; gostar de beber horizontes de pernas longas pelas conchas de velhos crustáceos, de inventar o itinerário milenário das baleias e de outros cardumes menores; gostar de medir emoções com instrumentos criados pelos poetas e de viver com a poesia atravessada na garganta como bela e inoportuna espinha de peixe não chega a ser gosto esotérico nem o mesmo que possuir um dos solstícios do girassol. Se são ou não farrapos da lendária Atlântida, são, com certeza, ilhas geradas pelo fogo na água, por amor. Que amor foi esse? É pura especulação. Sabe-se que foi (é) amor violento, desse que sem descurar a conveniência de um namoro platonizado por recato e pejo, vai da mordedura sensual nas costas à penetração mais profunda do abismo, descida aos infernos, um grito que nem os pássaros, no seu vôo migratório norte/sul, conseguem captar. Este amor não se pode ver. Apenas se pode pressentir/sentir quando ato consumado. E pode ver-se as mãos da água pousadas sobre a ilha, mas não se pode ver o fogo recolhido à serenidade do seu próprio espasmo."1
ÁLAMO OLIVEIRA
1 OLIVEIRA, Álamo ; ABREU, Maurício - Açores. Cascais: Sofoto, 1987