O Sabor da Poesia

(quadro de Michael Austin "Entwined")
XLV
ANTES
antes: a descoberta do musgo e como
ele significava mais que o presépio
dos dias santos, aqueles dias que
ninguém recorda senão nas manhãs claras
em que se relembra o pai e a mãe e a
pequena árvore lá no canto. à espera de
ser tocada. até as pequenas plantas se
ressentem do esquecimento dos homens.
antes: a descoberta das primeiras letras
e de como o poema se constrói com as vogais
e consoantes todas, em que se inventam amores
e se destroem sonhos de menino, com o refúgio
do sino branco que toca sem se fazer notar.
antes: a renúncia do amor mais puro, aquele
que nunca se deixa, mesmo que o verbo seja
mais límpido e se misture na técnica dos deuses.
o meu poema morre se da renúncia abandonar o
toque e os seios e a imensidão toda do amor de
eros.
antes: o mar cavado, a consagração plena da
saudade dos homens, o desprendimento das cousas
da alma, sem haver a alma. a carne é o retrato
pleno da solidão do meu amor que se deixa abater
por palavras vãs.
Jorge Vicente