O Sabor da Poesia

(quadro de Jonathan Wallace "Even In the Face of the Unutterable" (2001)
XXXIX
INDIZÍVEL
Como poderei eu, minha pomba, escalar o teu amor?
Trespassar com o ventre os degraus que separam
o dizível do indizível, o não-transcendente do transcendente?
Como poderei construir com o meu próprio corpo
um manto de seda no cume de uma falésia
e deixá-lo sorrateiramente, sob as vagas do mar?
Como poderá o oceano, na voracidade da sua água,
transformar em saliva doce os panos quentes que
levantei dos ares e lancei no fogo dos teus olhos?
Como poderei afirmar o não-dito, o nunca jamais
sentido nem imaginado?
Como poderei escalar, degrau a degrau, a estrela maior
e a estrela menor, como se estivessem justapostas
sem sentido aparente? Ou caminhar sobre as águas
e descobrir que, afinal, poderei dançar sobre elas
e construir um órgão com os sabores do mar, e soletrar
com os olhos um cântico imorredoiro?
das palavras sem sentido apenas escrevo o teu
pressentimento e o meu amor por ti.
das estrelas cai o estigma do verso e do poema
que não sabe soletrar a sibila.
Jorge Vicente