O Sabor da Poesia

VI
nunca regresso ao corpo onde nasci
nem mesmo à derradeira pronúncia do
feto. não gosto de ser demiurgo e de
recriar-me constantemente. isto apesar
dos poemas.
nunca regresso ao amor verdadeiro. ao
incondicional apego do espírito, aquele
que as folhas casam quando o outono vagueia
incólume nas searas de agosto. o alentejo
não é todo meu.
nunca regresso ao teu corpo sem me misturar
na neblina, como se alcácer-quibir fosse já
aqui e o meu reino, uma pura ilusão. se alguma
vez te tive por perto, foi no alto do castelo
de silves, quando o passado se misturou com a
realidade do poema.
Jorge Vicente