O Sabor da Poesia
I
"Um poeta está proibido de ter medo" (Gonçalo B. de Sousa)
estou proibido de ter medo e de
almejar um desejo mais grandioso
que as minhas reais capacidades
de soletrar palavras.
a absolvição surge do perfume da
flor que cresce na montanha. e os
místicos desenham-me, como se desenha
um verbo fácil, onde o enamoramento é
a condição essencial para se alcançar
a labareda. do fumo nascem as mãos e
a necessidade de recriar todo o universo
que não tem constância nenhuma, apenas a
dos peixes.
tudo se transforma no interior de uma pedra
filosofal absorta em imensos lençóis
de ouro.
estou proibido de ter medo e de temer
o Inferno. as minhas atitudes são as
rosas em fogo, que quebram quando se
sentem ameaçadas por dentro. não quero
ser o viandante que se despede da montanha,
nem o asceta que chora a absolvição.
apenas quero murmurar o meu amor por ti,
temendo o teu desaparecimento e o
meu, com as rosas pretas por guarida.
Jorge Vicente